Monday

O CORSET

Autora: Ísis Zisels

Billie Holiday. Só podia ter sido Billie Holiday. Até então meu corset era terrivelmente desconfortável, e havia uma loira oxigenada falando sem parar sobre como proclamar a autossuficiência. Sabe a amiga da sua amiga na fase pós-trinta, pós-pé-na-bunda e pós-depressão? Sinceramente, aquilo tudo era uma grande merda. Se eu fosse um pouco mais corajosa, ou tivesse bebido algumas doses extras, teria gritado em alto e bom som a palavra “merda”! Sinto um imenso prazer ao gritar impropérios esdrúxulos. Você não? Aquela gente precisava de uma boa “merdoterapia”! Ok. No mínimo me achariam uma depravada com Tourette. Mas achar é a única coisa que sabem fazer...
O corset continuava a me incomodar. O baile da hipocrisia fora especialmente decorado: flores artificiais, pessoas artificiais e ornamentos ridiculamente dourados. E, claro, um gigantesco chafariz de mármore no meio do jardim - isso porque a high society se preocupa demasiadamente com os pombos. Durante alguns segundos, observei fixamente o pênis da escultura romana, por onde a água jorrava abundante. O falo esculpido era a única coisa verdadeira naquela festa.
Já saía à francesa, quando, inesperadamente, começou a tocar “I'll Be Seeing You”... Parei no meio do salão, arrebatada pelo som melancólico. Virei-me em direção contrária e, ao longe, acabei avistando um antigo amor...
Ele parecia o mesmo. Sorriso aberto, olhar profundo, mãos bonitas, e, de novidade, uma barba incrivelmente sexy. A esposa, ao lado, era a namorada de anos atrás. Frequentemente traída por nosso desejo. Também tocou Billie Holiday quando nos conhecemos. Outra música, mas ainda assim Billie Holiday...
Imediatamente, abandonei aquela festa insuportável. Não queria que ele me visse. Decerto, mataria nossa última lembrança e eu morreria junto...
Já na rua, sucumbida por uma efêmera loucura, acendi um cigarro amassado que encontrara no fundo da bolsa. E o pior? O corset não me incomodava mais...