Monday

O PESCADOR DE ESTRELAS

Autora: Ísis Zisels

No pitoresco vilarejo da cidade Onírica, João Capaz, simplório pescador, desperta transeuntes narrando-lhes um punhado de histórias. Apesar do corpo envelhecido, João transparece nos miúdos olhos ambarinos um fulgor intenso de mancebo arisco.
Quando jovem, viajara por águas ocultas num efêmero barquinho de papel. Enfrentara noites lancinantes, violáceas tempestades e revoltas ventanias. Desvelara, em insólitos mergulhos, a beleza dos tesouros soçobrados nas íntimas escarpas. Levara consigo, de cada lugar, estrelas-do-mar repletas de luz; divinos regalos de sabedoria...
Velejou primaveras a fio conforme o arquejo das marés. Percorreu escumas buliçosas até tornar-se ancião. Em resposta, as correntes ofertaram-lhe, para descanso, o doce porto de Onírica. João Capaz, grato ao pouso, dedicou-se às refulgentes noites da cidadezinha...
Caminha, amiúde, sob imaculadas constelações, carregando, na mão esquerda, uma candeia; na direita, uma vara de pesca. Como isca, sopra aventuras à ponta do anzol. Em seguida, escolhe a estrela mais sublime e lança, rumo a esta, a linha esguia presa ao bambu.
Contempla a corda expedita a flutuar na calmaria celeste feito cauda de pássaro. Pressente, do contato entre astros e anzol, o som de clarins. Celebra o místico encontro derramando sorrisos ao luar. Sabe, mais do que nunca, sobre si mesmo: João Capaz, pescador de sonhos, peregrino do absoluto...