Monday

O SICOFANTA QUE SABIA TETAS E O PRESUNTO QUENTE

Autora: Ísis Zisels

- Eu quero esta, Jeremy.  Calibre 38. Uma belezura. 
- O que aconteceu com a Volcanic do seu avô?    
- O matusalém foi enterrado com ela, meu chapa. Para poder estourar os próprios miolos, caso acordasse cardíaco no ataúde.
- Que loucura!   
- Ele era epilético e nauseabundo. Ninguém sabe se estava vivo ou morto. Mas cheirava feito o diabo quando o encontraram todo cagado, segurando o rádio de pilha e o distintivo de xerife.    
- Sujeito estranho! Sempre bebia café com single malt na chafarica da Ursula. Balbuciava insultos ao rapaz jocoso do balcão e só exibia a dentadura quando espichava o semblante por causa dos tiques.    
- Um asno, Jeremy, um asno! Quem, em sã consciência, derramaria Glenfiddich no expresso, como se fosse uma dose de qualquer porcaria? Watson o conhecera de outra época. Disse que o vetusto, desde mancebo, estragava as coisas boas da vida. Esculhambava os livros do irmão bastardo, açoitava cavalos e atirava nos colibris do pomar feito um calhorda. Após anos de calúnia, tornou-se responsável pelo condado para foder o rabo do Billy e de toda aquela gente despojada que você não se empenhou em ajudar...
- Vou te dizer, Wolf, o macróbio era alarife, mas possuía qualidades inusitadas...
- Talento para o pôquer, suponho? Já que a política não era o forte dos meus antepassados...
- Melhor! Identificava como ninguém um belo par de seios!    
- Francamente, Jeremy! Não precisa ser um bom comedor de xoxotas para entender do assunto.    
- Não, Wolf. Algumas beldades insistem em disfarçar a forma e o volume com a meia-taça e o espartilho. O sicofanta, depois da demência, já não cumpria seu ofício. Quando perdeu a autoridade, desenvolveu, em compensação, um olfato aguçado para tetas. Descrevia cada uma delas sem espreitar, estrábico, os decotes.   
- Ora, não me faça rir de suas piadas!    
- Eu juro, Wolf!  As raparigas do vilarejo faziam filas, bem aqui, como se aguardassem as progressões de um astrólogo. Seu avô desafiava todas elas. Garantia-lhes enxergar qualquer mamilo tímido sob as malhas rendadas e bojos vultosos. Se falhasse a missão, estaria fadado ao jogo da roleta russa.    
- Que colhões!    
- As moçoilas, estupefatas com a clarividência, erguiam as blusas e desabotoavam os vestidos, eufóricas, comprovando, umas as outras, os detalhes revelados pelo mágico anacrônico.    
- Que história!    
- Pois foi o único milagre que testemunhei nesta vida...   
- Tem cigarro?    
- Pegue aqui.  Quer fogo?

- [BANG! BANG!] Não gosto de falso testemunho, Jeremy. O cano fumegante é oportuno, a propósito. Lastimo não guardar um puto sequer no bolso desgastado de sua calça...