Monday

RELATOS DE UM VOYEUR EM SAMPA

Autora: Ísis Zisels

Sampa é o paraíso dos voyeurs. Um simples passeio pelas ruas movimentadas alimenta qualquer par de olhos famintos. Tardes prateadas cor de sombra de prostituta, lojas iluminadas, moças discretamente vulgares, executivos lobotomizados, meia-dúzia de punks e travestis. Gosto de espreitar becos e boates decadentes. Às noites, dançarinas acabadas, corrompidas por singelos traços de feiura, despem promessas de morte...
Aos trinta, conheci uma estrangeira que despia promessas de amor. Movia-se lenta, ousada, ao som de antigos vinis. O contorno do corpo fosforescia sob a lâmpada, como se fosse aura incandescente. Lábios exagerados e cabelos curtos concediam-lhe elegância dissimulada de atriz. Desabotoava o vestido transparente intimidando-me fixamente com olhos felinos. Ela, fêmea fatal, insinuava-se emudecida. Eu, estático, observava seu mistério...
Naquela noite, as botas rutilantes da mulher conduziram-me pelas vielas subitâneas do centro da cidade, produzindo ritmados estalos. Chegamos ao quarto de um velho motel de paredes mofadas. A jovem permanecia sedutora... As luzes urbanas penetravam a janela, refletindo em sua pele tons lilases. O vestido branco sobrepunha-se, translúcido, a lingerie de seda preta. Banhada em cores vibrantes despertava-me obscuros desejos...
Aproximou-se cada vez mais, esboçando sadismo no sorriso. Sabia exatamente o que queria... Antes de amar-me, retocou o batom espesso. Deitou-me na cama, dominadora, tomando-me a gravata do pescoço e atando-me os pulsos entregues. Unhas e mordidas enlouquecidas provocaram-me agudos arrepios, gritos sufocados.
No dia seguinte, os reflexos coloridos haviam se dissolvido. A manhã mostrava-se morna e opaca. O céu ocre e o barulho irritante do trânsito causavam-me vômito e enxaqueca. Despertei contra vontade. Esfreguei os olhos cansados e desfiz, com dificuldade, os nós da gravata. Quis mentalmente fotografar a vida irônica: manchas de beijos pelo corpo... Na grande São Paulo: eu, vestígios de boca e o perfume seco da solidão.