Monday

VÊNUS EM DECÚBITO

Autora: Ísis Zisels

Pela janela entreaberta, a brisa noturna trazia um pouco do orvalho primaveril. O quarto, à meia luz, reproduzia dançantes sombras nas paredes hospitalares. As figuras nebulosas pareciam ora assustadoras, ora melindrosas. À penumbra, sobre o leito de fronhas desajustadas, uma jovem enferma folheava, aleatoriamente, seu livro profano...
Envolta na própria loucura, cada página virada arrancava-lhe um sussurro enlanguescido... Os seios palpitavam salientes e os mamilos, eriçados, pareciam escapulir do frouxo decote... Por vezes, cheia de rubor, interrompia a leitura e acariciava as angulações do próprio corpo. Contorcia o pescoço esguio, despenteando, pouco a pouco, a cabeleira castanha. Lentamente, relaxava as pálpebras e mordiscava os lábios, fazendo-os mais túrgidos.
Num ébrio instante, contraiu as nádegas, apertou as cochas roliças e pôs-se a desenhar sinuosas linhas com os quadris. Perdida em movimentos, deixou despencar, displicentemente, o livro misterioso. As páginas brancas nada traziam, senão as insanidades daquela Vênus em decúbito...
Sem importar-se com o vazio, continuou a deleitar-se deslizando as costelas numa respiração toda ofegante. Enquanto, em seu frêmito de volúpia, esfregava os pés úmidos, vieram-lhe os primeiros raios do sol e beijaram-lhe, despudorados, as cavidades...