Wednesday

PLANTA NA CALÇADA

(Ísis Zisels)

A cal
do caos
aclama
o clima

o rizoma
na esquina
o chão cozido,
friso forte

come o cálcio
e ri da morte
(em um dia corriqueiro)

o ferro
esfola
as folhas
feias

Saturday

A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

(Ísis Zisels)

O que sou senão um ser natural,
com o corpo de sol e sonhos?
Flor do mar na travessia...
Concha de pausas e melodias

O que sou senão o que vivo e hei de viver?
Senão as mortes que aprendo a morrer?

Eu, que flutuo na incerteza da noite,
com a clareza do meio-dia –
eis o meu múltiplo:
dor e alegria!

Tuesday

PULSÃO

 (Ísis Zisels)

Segue à sede
o pulso
d’água;
no impulso,
o tigre nada
qual peixe
na estrada –
da terra
à torrente,
da guelra
à garra.

Barrando 
a vertente,
deriva
à beirada…

Monday

PERSÉFONE

(Ísis Zisels)

Da eclosão diurna,
das representações
e de toda a ciência,
cortesia
e decência,
eu quero distância.

Prefiro a sombra
dos sentidos,
a descida,
a discrepância,
caminho curvo,
amor turvo,
o absurdo
e sua dança

O desmedido,
o primitivo,
o desejo 
e a lembrança
nos ditirambos
do meu próprio inferno –
mas não para sempre,
até o fim do inverno.

Thursday

EROS E PSIQUÊ

 (Ísis Zisels)

A busca das bordas,
o ócio do laço,
o viço das línguas,
os ossos bordados,
os deuses bramindo,
as bocas borradas,
as brumas dos beijos,
a tez transbordada...

Wednesday

ONÍRICA

(Ísis Zisels)

O timbre cítrico
da cítara,
o tinto encanto
do canto
à calígera,
ligeira,
galgando
águas
e pontes,
fibras
no horizonte,
formas
na correnteza...

Ecos do cântaro –
oca certeza.

Thursday

AFRODITE

(Ísis Zisels)

Onde o cisne dança?
No sal do Chipre,
em onda mansa
O sol
no sonho,
ao dorso,
lança
sombra,
lúbrica
lembrança

Aonde a boca avança?
Nos damascos
do enfeite,
no frasco
do fresco leite,
macadâmias
ao deleite,
mucosas
do figo,
azeite

Aonde a língua alcança?
O banquete,
a Babilônia,
o desejo,
a Macedônia,
do amor
ao adultério,
a morte amara
do Império

Onde a Cípria trança?
Ardis
dos dedos,
vingança,
feitiço
do beiço,
fragrância

Onde um deus remansa?
Nos olhos do mar,
ao derramar da noite...
O beijo do vento
ou os lábios do açoite?