Wednesday, February 22, 2012

Filó









Autora: Ísis Zisels

FIO
FIA,

FIA

Arte: Quino, "Mafalda".

Encontro Casual



Autora: Ísis Zisels

Degustava meu whisky, proferindo meu momento Greta Garbo, enquanto ele, Don Juan, aproximava-se inconveniente...

- Aceita outro drink, gata?
- Surpreenda-me, querido.
- Garçom, um Chivas para a moça.
- Sem gelo, por favor! Acrescentei.
- As Time Goes By é uma linda canção, não acha?
- Sim, mas prefiro ouvi-la em silêncio... sem perguntas clichês.
- O que te excita?
- Bertolucci.
- L'ultimo Tango A Parigi?
- Claro. E você?
- Orgasmos femininos. Fui clichê?

Bebi um gole de Chivas Regel, umedecendo os lábios. Fechei os olhos, deslizando as mãos pela nuca... Fingindo desejo, emiti gemidos de lascívia, palavras despudoradas...

- Não, eu que fui. Respondi-lhe, após a encenação.

Ele riu atônito, completando com ironia:

- Foi bom só pra você?

Acendi o “cigarrinho de depois”, enquanto os rostos assustados espreitavam-me. Em seguida, estendi-lhe a mão, fitando-o blasée:

- Norma Lúcia. O prazer é sempre meu.
- Eduardo. Passar bem.

Afinal, não é tão clichê o ex pagar um drink...

Arte: LAUTREC, Henri Toulouse. Divan Japonais (Japanese Settee). 1893.

Monday, January 23, 2012

Desejo

Autora: Ísis Zisels

A fêmea dança e por inteira dá-se. Mas onde habita específica? No corpo a transpirar mel e mirra através da quase inexistente organza? Ou no próprio movimento a desenhar-se dionisiacamente na atmosfera? Nos olhos de Artemis? Num punhal disfarçado por entre os lábios que ameaçam, com um único riso, despencar uma Babilônia? Na confusão dos ventos de Éolo, do modo mais subversivo, quando os cabelos flutuam e os dedos languidos, repletos de turquesa, seduzem? Na cigana que se faz toda serpente, de repente, surgindo nova e vibrante? Nas Amarílis rubis que ofertam os seios e as coxas em cachos infinitos emaranhando-se por sobre o úmido mistério? No Ceilão, de onde vem a canela? No sabor dos fluidos, do ventre mouro, dos perigos das escarpas, das mucosas? Nas terras intactas, desconhecidas, de onde se mostra a beleza? No ato de revelar-se para todo o sempre, religiosamente, enquanto a música a penetra com vigor?
Eis que, num grito de fogo, feito Diana ao irromper da noite, infatigável, a mulher transborda-se... E, como se rasgasse burcas invisíveis e renascesse do inferno, e de dentro de mim, faz-se adorar perante as sombras sob o nome de Ísis!

Arte: KLIMT, Gustav. Judith II. 1909.

Reflexões de uma mulher extemporânea




Autora: Ísis Zisels


CON-TEM-PO-RA-NEI-DA-DE: UM PALAVRÃO DESFRAGMENTADO.

A contemporaneidade é um grande milk-shake sorvendo a si mesmo. Prefiro ser extemporânea.



Arte: KLEE, Paul. Cabeza con bigote alemán. 1920.

Língua de gato



Autora: Ísis Zisels

Gosto de gatos. Felinos são animais estéticos: possuem deslumbrante capacidade de embelezar qualquer ambiente. Desfilam, feito obras de arte ambulantes, por entre os obstáculos, adaptando-se a eles; sinuosos, precisos, compõe com elegância genuína o cenário onde habitam.
Conquistam determinado lugar não porque almejam submetê-lo, mas porque sabem aproveitar todo o espaço de modo que as coisas, ali dispostas, naturalmente, vinculam-se a eles. Assim, são, simultaneamente, cativados pelo território ocupado durante o jogo de interação.
Olhos atentos, misteriosos, desafiadores. Não temem o confronto com o outro, muito pelo contrário, deliciam-se a partir desta divertida experiência... Há um prazer malicioso na possibilidade de redirecionar, inadvertidamente, o expectador ao próprio abismo, atuando, ao mesmo tempo, como quem o espreita.
Vaidosos... Quiçá? O que soa orgulho é, no fundo, uma manifestação da admirável dignidade e cumplicidade para/com a própria solidão. Características também interessantes aos bípedes implumes, simbolicamente estruturados, dotados de desejo e fantasia...
A propósito, que patético: eu, aqui, humanizando os gatos! Logo eles que utilizam a língua áspera para a limpeza pessoal, enquanto procuro surpreender-me com representações de mim mesma. Mas a linguagem não me serve para lamber pelos e inventar sabores? Afinal, a curiosidade matou o gato?

Arte: Miró, Joan. Cat Encircled by the Flight of a Bird. 1941.

Wednesday, December 14, 2011

Deixo-te



Autora: Ísis Zisels

Deixo-te como o timoneiro que navega o absoluto
E confia na sabedoria do vento...
Deixo-te como o pôr-do-sol
Embrulhando o tempo em que éramos naturalmente alegres

Deixo-te porque amo também a noite e a solidão
E aprendo, a cada dia, com a Morte

Deixo-te como a águia a alçar vôo:
Destemida, determinada
A sangrar as garras, agonizar de dor
E virar pó, num clarão imenso...

Deixo-te e renasço
Prostrada aos pés do mundo!
Apaixonada pela arte
E pela paisagem que me acontece num segundo...

Deixo-te, mas não me deixo;
Em meu desejo, sei-me inteira
E mulher

E, com a força das águas urgentes,
Afasto-te do que Sou!
Porque minha profundidade te submerge,
Meus versos não te comovem
E teus olhos não me alcançam...

Arte: WATERHOUSE, John William .The Lady of Shalott (on boat). 1888.

Wednesday, May 18, 2011

Relatos de um voyeur em Las Vegas






Autora: Ísis Zisels

Las Vegas é o paraíso dos voyeurs. Um simples passeio pelas ruas movimentadas alimenta qualquer par de olhos famintos. Tardes azuis cor de sombra de prostituta, lojas iluminadas, moças discretamente vulgares, executivos lobotomizados e meia-dúzia de punks travestis.
Gosto de espreitar becos e boates decadentes. Às noites, dançarinas acabadas, corrompidas por singelos traços de feiúra, despem promessas de morte...

Aos trinta, conheci uma estrangeira que despia promessas de amor. Movia-se lenta, ousada, ao som de antigos vinis. O contorno do corpo fosforescia sob a lâmpada, como se fosse aura incandescente. Lábios exagerados e cabelos curtos concediam-lhe elegância dissimulada de atriz. Desabotoava o vestido transparente intimidando-me, fixamente, com olhos felinos. Ela, fêmea fatal, insinuava-se emudecida. Eu, estático, observava seu mistério...

Aquela noite, as botas brilhantes da moça conduziram-me pelas vielas silenciosas, produzindo ritmados estalos. Chegamos ao quarto de um velho motel de paredes mofadas. A jovem permanecia sedutora... As luzes da cidade penetravam a janela, refletindo em sua pele tons lilases. O vestido branco sobrepunha, translúcido, a lingerie de seda preta. Banhada em cores vibrantes despertava-me obscuros desejos...

Aproximou-se cada vez mais, esboçando sadismo no sorriso. Sabia exatamente o que queria... Antes de amar-me, retocou o batom espesso. Deitou-me na cama, dominadora, tomando-me a gravata do pescoço e atando-me os pulsos entregues. Unhas e mordidas enlouquecidas provocaram-me agudos arrepios, gritos sufocados.

No dia seguinte, os reflexos coloridos haviam dissolvido-se. A manhã mostrava-se morna e opaca. O céu ocre e o barulho irritante do trânsito causavam-me vômitos e enxaqueca. Despertei contra vontade. Esfreguei os olhos cansados e desfiz, com dificuldade, os nós da gravata. Quis, mentalmente, fotografar a vida irônica: manchas de beijos pelo corpo... Na grande Las Vegas : eu, vestígios de boca e o perfume seco da solidão.

Arte: CREPAX, Guido. Il sogno degli Anni ’60. 2006.

Tuesday, May 17, 2011

O castigo de Laura Nowell



Autora: Ísis Zisels


Certamente, para alguém que vivera tanto tempo nos cassinos nova-iorquinos, os porões obscuros da cidade maldita jamais pareceriam tão asquerosos quanto a mim. Sentia-me sufocado pelo ar luxurioso e atormentado pelas gargalhadas grotescas dos homens devassos. Mas precisava revê-la. Precisava observar cada ínfimo detalhe de sua vida patética...

Laura remetia-me, mais do que nunca, à imagem de uma prostituta em decadência. Os seios já não eram tão firmes, e os cachos loiros haviam se reduzido a singelas mechas prateadas. Ainda assim, fumava vulgarmente um charuto da Nat Sherman, deixando-o borrar pelo volumoso batom vermelho.

Sempre gostei da ousadia implícita em seus lábios, unhas e vestidos. Sempre fui completamente louco pelo seu glorioso desejo de ser o que queria. No fundo, sabia que seu corpo pertencia aos homens, mas sua alma somente a solidão...

Entretanto, era-me estúpido alguém, que se dizia senhora de si mesma, entregar-se aos boêmios mais hostis do estabelecimento local. E não o fazia por dinheiro, apenas. Tantas vezes lhe propusera uma vida melhor, mas fora em vão. Ferido por inúmeras palavras de descaso coubera a mim, dia após dia, apodrecer ao lado daquela paixão doentia...

As noites de novembro, porém, pareciam-me inspirar um novo começo. Cada vez que espreitava volúpia e humilhação em seus olhos, percebia minha indiferença a qualquer tipo de sofrimento. Ambos estávamos perdidos em nossas próprias jogadas. Não havia resquício algum de vitória...

Lembrei-me, num segundo fugaz, que ainda podia mudar o rumo das coisas. Restara-me, além de goles de loucura e amor amargado, a velha e empoeirada arma de meu pai. Sim, eu tinha uma arma. Mais do que isso, eu tinha um motivo. Seu nome? Laura Nowell...


Arte: WARHOL, Andy. Guns. 1981.

Thursday, May 12, 2011

Fenomenológica




Autora: Ísis Zisels

De tempo em tempo,
Consagram-se os templos
À memória

Meu santuário é agora:
Invade-me o corpo
Sinestésica glória

Rendo-me ao infinito do instante;
Às multidões orgíacas
De partículas inconstantes

À dança do tempo,
Do templo,
Do corpo

Ao espaço enigmático;
Ao Rítmo do Caos

Meu amor é climático...

Arte: MAGRITTE, Rene. La Magie Noire. 1935.

Friday, March 04, 2011

Microcosmática



Autora: Ísis Zisels


Sou um par de estrelas miopes
Amando a noite
Sem despi-la
Tenho veias microcosmáticas,
Boca microcosmática
E isso me basta

Devoro átomos,
Respiro Ápeiron,
Desejo vida
E sangro

Habito o cósmos,
Orbito nua,
Percebo o sonho:
Sou Eu ou a Lua?

Arte: MAGRITTE, Rene. The Cloak Of The Night or The Evening Gown (El Vestido de Noche). 1954.

Wednesday, November 17, 2010

Fotógrafo



Autora: Ísis Zisels

O homem e seu falo
O mundo deflora
Dentro aflora
A flor de fora

Muda tudo
Mudo fala
Cor desnuda:
"Nonada"

Flagra a luz
Flui no tempo
Arte-fato
Olhar atento

Arte: MAGRITTE, Rene. Le Tombeau des Lutteurs. 1960.

Sunday, November 14, 2010

Ópio



Autora: Ísis Zisels

Minha Palavra é Vênus... Em verdade vos digo: sou mulher... Sei-me apenas nesta convicção... Rendo-me, despudorada, à Deusa de meu sexo...

Conheço-me o suficiente para dar-me prazer... Gozo! Comovo-me intensamente com sutilezas...

Saberá um homem desvelar-me? Sinto-me virgem, ansiosa pela penetração... Desejo entregar-me ao único amante: animal e poeta integrados na mesma força!

Minha beleza floresce selvagem, descontrolada... Percebo-me criativa, sensual... Capto a fragrância de meu próprio mistério... Tenho a estranha sensação de ser...

O expectador existe?

Arte: BOTTICELLI, Sandro. The Birth of Venus (Nascita di Venere). 1486.


Wednesday, October 27, 2010

Sobre a saudade



Autora: Ísis Zisels

Querido “Fernão Capelo”,

Sinto saudades de você é a frase mais bonita que lhe pronuncio. Não existe falta do que outrora não nos tenha satisfeito. A saudade é critério de significância quando o outro desponta pela ausência. Tonifica o que de mais singelo, profundo e harmonioso compartilhamos. É porto e pouso; abrigo afável em meio ao temporal...

Presentifica e refresca o passado, resgatando-o das cinzas do tempo com novas tonalidades. Inspira-nos a construção do que somos. Põe-nos paleontólogos de nós mesmos a desvelar, inadvertidamente, pistas sobre nossa jornada...

Sentimento genuíno transborda-nos espontâneo, ora como refluxo, ora como primavera. Se dissesse à lua que não evoco tua efígie, fitaria no céu um sorriso minguante e perceber-me-ia, imediatamente, um caramujo. Ao negar, simplesmente, confirmaria tua palatável lembrança...

Memórias são híbridas: conectam-se ao nosso íntimo e captam sempre alguma fantasia. Quando pensamos saudosos em um objeto, desejamos a relação com ele. Procuramos re-viver o prazer alquímico do amor!

Certa vez, Clarice sussurrou-me da cabeceira:

“Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.”

A nostalgia é orgânica; poesia da carne. Nela, queremos o corpo do outro. Um eflúvio salso me envolve quando, mentalmente, retorno àquele cais... Divertíamos-nos enquanto a brisa provocava meu vestido... Beijávamos-nos com calor e ternura... Ao entardecer, reverenciávamos as cores de Sisley...

Recordações repletas de amor... Amar é ser pássaro e sobrevoar o oceano sem almejar possuí-lo. Contudo, recordar é apropriar-se, minimizando a imensidão cristalina do mar. É alertar-se com o quicar de bola nas mãos de uma criança... É ser cutucado...

Sinto saudades de você é a frase mais incômoda que lhe pronuncio. Às vezes, parece apego; sufoca. Cenas ruminadas transformam-nos em estátuas solitárias...

No desamor, fechamos as portas da alma para “esquecermos” a dor aguda. De repente, a saudade assalta-nos pelo basculante, repleta de momentos jubilosos, furtados.

Como libertarmos-nos senão arejando bem a casa? Clamando ao sol nascente que penetre e dissolva, naturalmente, as sombras...

Um beijo ao vento,


Sua “Gaivota”.

Arte: SISLEY, Alfred. Barges on the Saint-Martin Canal. 1872.

Sunday, October 17, 2010

- Entrelinhas -



Autora: Ísis Zisels

Escrevo para expurgar demônios!
Gritar ao mundo o que há entre colchetes!
Libertar errantes "erres"
Na túrgida resposta das amígdalas!

Escrevo para vomitar hipérboles!
Em crônicos "ais"
E cômicos "mas",
Devorados por vírgulas,
Na síncope do tempo!

Escrevo para interpretar-me!
Render-me às reticências...
Exclamar volúpia e dor
Na divina loucura do amor!

Escrevo no espaço das orações
Sem aspas ou interrogações:
Nua, lúcida, plena...
No vazio silencioso que ultrapassa o verbo...

Arte: DALI, Salvador. Galatea Of The Spheres. 1889.

Thursday, July 01, 2010

A experiência estética em Walter Benjamin



Autora: Ísis Zisels

Viajando no tempo, encontramos na Paris do século XIX o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940) sob o olhar de suas lentes críticas, fotografando o cenário caracterizado pela grande quantidade de galerias comerciais. A partir deste prisma, em “Das Passagen-Werk”, investiga os problemas suscitados na industrialização, perpetuados até os dias de hoje: o isolamento dos indivíduos, o empobrecimento da experiência estética e a desvalorização das relações coletivas com as obras de arte.

Semelhante à Theodor Adorno, acusa o modo de produção capitalista de retirar o significado da arte, apresentando-a como produto de consumo. Adota um critério pessimista quanto à idéia de progresso soerguida durante a revolução industrial, uma vez que observa o esvaziamento dos valores estéticos, a corrupção da sensibilidade e a vulnerabilidade dos relacionamentos estabelecidos às sombras dos interesses econômicos liberais.

Todavia, sustenta a crença na existência de uma “aura” capaz de eternizar a história, a tradição e a identidade da criação artística. Apesar de essencial, a “aura” perde-se nas reproduções em massa, onde o desejo de consumo é incessantemente fomentado. A contemplação opulenta do objeto é, assim, rechaçada, acarretando a interrupção da comunicação do sentido profundo do artista.

A experiência estética é também dilacerada pelo bombardeio de informações da mídia - o “choque anestésico”. O valor do culto artístico é corrompido pela ausência de tempo de maturação das mensagens recebidas. A velocidade de imagens reforça o hábito burguês de querer adquirir e expor imediatamente os “ícones” da arte.

O culto, entretanto, desloca-se da dimensão ritualística à política, concedendo à obra a oportunidade de ser reinterpretada, criticada e coletivamente finalizada. Neste sentido, a reprodutibilidade não é absolutamente negativa; ao menos oferece, numa curiosa dialética, o possível acesso à reminiscência da “aura”.

Na tentativa de restabelecer as percepções estéticas, Benjamin supervaloriza a memória, a sobreposição da tradição integral à oficial e a re-leitura do presente através da busca pela história, como Marcel Proust em “À La Recherche Du Temps Perdu”.

Destaca, ainda, o movimento surrealista como o êxtase da arte moderna, elogiando Bertold Brecht que, ao vetar a identificação com o público, inaugura um espaço reflexivo no teatro.

Cabe à arte, portanto, manter-se aberta e suspender, em sua experimentação, a mediocridade do cotidiano, aguçando as percepções conscientes e inconscientes do indivíduo e promovendo novas perspectivas, sempre mais integradas, da realidade.


Arte: CORTÉS, Edouard León. Théâtre du Vaudeville .19th.

Thursday, April 22, 2010

O pescador de estrelas



Autora: Ísis Zisels

No pitoresco vilarejo da cidade Onírica, João Capaz, simplório pescador, desperta transeuntes, narrando-lhes um punhado de histórias. Apesar do corpo envelhecido, João transparece, nos miúdos olhos ambarinos, um fulgor intenso de mancebo arisco.

Quando jovem, viajara por águas ocultas, num efêmero barquinho de papel. Enfrentara noites lancinantes, violáceas tempestades e revoltas ventanias. Desvelara, em insólitos mergulhos, a beleza dos tesouros soçobrados nas íntimas escarpas. Levara consigo, de cada lugar, estrelas-do-mar, repletas de luz, divinos regalos de sabedoria...

Velejou primaveras a fio, conforme o arquejo das marés. Percorreu escumas buliçosas até tornar-se ancião. Em resposta, as correntes ofertaram-lhe, para descanso, o doce porto de Onírica. João Capaz, grato ao pouso, dedicou-se às refulgentes noites da cidadezinha...

Caminha, amiúde, sob imaculadas constelações, carregando, na mão esquerda, uma candeia; na direita, uma vara de pesca. Como isca, sopra aventuras à ponta do anzol. Em seguida, escolhe a estrela mais sublime e lança, rumo a esta, a linha esguia presa ao bambu.

Contempla a corda expedita, a flutuar, na calmaria celeste, feito cauda de pássaro. Pressente, do contato entre astros e anzol, o som de clarins. Celebra o místico encontro, derramando sorrisos ao luar. Sabe, mais do que nunca, sobre si mesmo: João Capaz, pescador de sonhos, peregrino do absoluto...

Arte: GOGH, Vincent Van. Starry Night. 1889.

Monday, April 05, 2010

Um travesti chamado Gina



Autora: Ísis Zisels

["My funny valentine
Sweet comic valentine
You make me smile with my heart..."]

No centro do palco, um feixe luminoso tinge os fios desbotados da peruca de Gina.
O vestido de lantejoulas projeta pontos metálicos nas paredes do Hotel - Pub.
Camuflada com pankake barato, a pele coleciona hematomas de insalubre desejo.
A diva de Almodóvar, no abismo das próprias emoções, debruça-se ao piano: louca... rouca... Conduzindo ao peito a poesia de Chet Baker...

["Your looks are laughable
Unphotographable
Yet you're my favourite work of art..."]

Dirige-se às mesas de vidro, desnuda, embora repleta de adornos. Procura o executivo de Copacabana, cujo gozo, muitas noites, impregnara-lhe os lábios. Encontra-o: inóspito, engravatado, patético; segurando um Dry Martini, próximo à esposa franzina.

["Is your figure less than greek
Is your mouth a little weak
When you open it to speak
Are you smart?"]

Vislumbra-o, enquanto canta. Dilata a íris, arrepia o dorso, feito gata no cio, sussurrando dor e prazer... Mas, ele finge desinteresse.

“Por que te amo?” Pergunta, silenciosa, ao amante. “Apesar do desprezo, da hipocrisia, das agressões morais; da Paella que cozinhei quando você não veio; do gosto insosso do teu beijo; da minha solidão...”

["But don’t change a hair for me
Not if you care for me
Stay little valentine stay..."]

O homem casado relembra os momentos lascivos que viveram: “apesar de tudo... apenas um travesti chamado Gina”, conforma-se .

["Each day is valentine's day..."]


Arte: LICHTENSTEIN, Roy. Thinking Of Him. 1963.

Wednesday, June 18, 2008

Amor



Autora: Ísis Zisels

Meu príncipe não é encantado;
Tomou-me de assalto,
Feito cavalo selvagem

Abalou-me os sonhos,
As pernas,
O pulso,
Num impulso,
Deixando-me nua
E viva

Do seu amor,
Brotaram-me gentilezas,
Desejo nos olhos,
Certezas

Da ponte dos lábios,
Dos corpos,
O gozo

(Mistério dos rios
No mesmo pouso)

Desde então,
Amar ouso:

Ardo,
Enlouqueço,
Tardo,
Esqueço,
Ponho-me a cantar...

Desconheço-me;
Re-conheço o mar...

Arte: LAUTREC, Henri de Toulouse. The Kiss. 1892.

Wednesday, January 02, 2008

Corset



Autora: Ísis Zisels

Billie Holiday. Só podia ter sido Billie Holiday. Até então o corset era terrivelmente desconfortável, e havia uma loira oxigenada falando sem parar sobre como proclamar a auto-suficiência. Sabe a amiga da sua amiga na fase "pós-trinta", "pós-pé-na-bunda" e "pós-depressão"?
Sinceramente, aquilo tudo era uma grande "merda". Se eu fosse um pouco mais corajosa, ou tivesse bebido algumas doses extras, teria gritado em alto e bom som a palavra “merda”! Sinto um imenso prazer ao gritar impropérios esdrúxulos. Você não?
Aquela gente precisava de uma boa “merdoterapia”!
Ok. No mínimo me achariam uma depravada com Tourette. Mas achar é a única coisa que sabem fazer...
O corset continuava a me incomodar. O baile da hipocrisia fora especialmente decorado: flores artificiais, pessoas artificiais e ornamentos ridiculamente dourados. E, claro, um gigantesco chafariz de mármore no meio do jardim - isso porque a high society se preocupa demasiadamente com os pombos.
Durante alguns segundos, observei fixamente o pênis da escultura romana, por onde a água jorrava abundante. O falo esculpido era a única coisa verdadeira naquela festa.
Já saía à francesa, quando, inesperadamente, começou a tocar “I'll Be Seeing You”... Parei no meio do salão, arrebatada pelo som melancólico. Virei-me em direção contrária e, ao longe, acabei avistando um antigo amor...
Ele parecia o mesmo. Sorriso aberto, olhar profundo, mãos bonitas, e, de novidade, uma barba incrivelmente sexy. A esposa, ao lado, era a namorada de anos atrás. Frequentemente traída por nossa paixão. Também tocou Billie Holiday quando nos conhecemos. Outra música, mas ainda assim Billie Holiday...
Imediatamente, abandonei aquela festa insuportável. Não queria que ele me visse. Decerto, mataria nossa última lembrança e eu morreria junto...
Já na rua, sucumbida por uma efêmera loucura, acendi um cigarro amassado que encontrara no fundo da bolsa. E o pior? O corset não me incomodava mais...

Arte: CREPAX, Guido. Valentina.

Thursday, December 06, 2007

Clube da Náusea



Autora: Ísis Zisels

Vincent aparentava uns sessenta e sete anos, embora fosse muito mais novo. Costumava culpar a vida por ter ficado demasiado velho e corcunda. Entretanto, ele mesmo se firmara naquela postura...

Às manhãs reclamava do sabor do café, depois tomava suas pílulas para enxaqueca e depressão. Passava as tardes remoendo o passado e pensando nos sonhos perdidos. Sua vida era-lhe um pêndulo que oscilava entre dor e tédio. Não sentia prazer em coisa alguma, exceto em engolir seus remédios e decorar todas as bulas. Não queria comer Fettuccine no restaurante que tanto gostava, tampouco ouvir as músicas que adorava ouvir. Tudo se desgastara. Nada mais o apetecia.

Contudo, um acontecimento inusitado iluminara-lhe aquela noite. Pouco antes de deitar-se, deparou-se com um estranho cartão em sua mesa de cabeceira:

"Bem-vindo ao Clube da Náusea!
Para legitimar-se como participante, faça o desjejum amanhã no restaurante mais próximo de sua casa.
Ass.: Eu. "

Há muito tempo não largava as sombras de sua casa, entretanto estava tão curioso que decidira encontrar-se com o misterioso "Eu"...
Chegando ao restaurante, um sujeito sorridente e muito elegante aproximou-se de maneira obstinada:

- Prazer em conhecê-lo, Vincent!
- Quem é o senhor?
- Permita-me apresentar-me: chamo-me Eu.
- Nunca vi ninguém com este nome...
- Fui um dos primeiros participantes convocados pelo Clube da Náusea, por isso vim conversar com você.
- O que é Clube da Náusea? Por que convocaram-me?
- Clube da Náusea é um jogo filosófico criado por Jean-Paul Sartre, Albert Camus e Simone de Beauvoir. Consiste em convocar desconhecidos para discutir e lidar melhor com as problemáticas da vida. As discussões devem estar calcadas em uma perspectiva concreta, promovendo o relacionamento intenso com o mundo e com nós mesmos.
- Certo. E quais seriam os temas abordados?
- A liberdade de escolha, por exemplo. Você já se questionou, alguma vez, a cerca da sua autenticidade? Particularmente, acredito que é possível sermos autênticos no sentido de escolhermos como construir nossas vidas. Quando contactamos a solidão e descobrimos a angústia ou vazio existencial, nos conscientizamos da nossa possibilidade de Ser e também da nossa responsabilidade perante as escolhas. É o momento da náusea!
- É assim que tenho me sentido: enauseado, ou melhor, no fundo do poço...
- Lembrei-me de um aforisma do filósofo alemão Friedrich Nietzsche: "quando se olha muito tempo para o abismo, o abismo olha para você."
- Entendo perfeitamente!
- É por isso que Sartre enviou-lhe o cartão. Para que decida se sua náusea será bem aproveitada.
- Evidentemente quero que seja, mas receio que minha corcunda não permita.
- Diga-me Vincent, o que fazia com maior gosto antes de encurvar-se?
- Eu esculpia.
- O que exatamente?
- Objetos de argila.
- E por que não os esculpe mais?
- Não sei, o destino roubou-me os sonhos...
- No meu entendimento, o destino baralha as cartas (neste aspecto oponho-me à Sartre), mas é nítido que nós somos os jogadores. Portanto, você usou de má-fé!
- Má-fé?
- Sim. É um termo sartreano. Significa auto-engano. Indica que você não quer assumir a responsabilidade por sua própria escolha. A decisão de não esculpir.
- Discordo. Infelizmente, não podemos fazer tudo o que queremos. A sociedade obrigou-me a andar por outros caminhos...
- Não importa o que fizeram de você, meu caro, e sim o que você faz com aquilo que fizeram de você.
- Devo, então, voltar a esculpir meus objetos?
- Responda-me a seguinte pergunta: você esculpe o seu Ser?
- Ora, esculpir meu Ser é como negar minha condição de Ser eterno! Parece-me falso!
- Não seja cego! Falarei como Heráclito e Buda: tudo no mundo está em movimento. O universo dança conforme a sinfonia da Morte, e não existe nada mais belo! Olhe para a mesma árvore duas vezes consecutivas: você a identifica, ordenadamente, mas ela já não é a mesma...
- De fato!
- Logo, a ação constrói o Ser. Ele não está pronto. É tal como a argila.
- Está "sendo" no mundo?
- Bravo! O homem, que possui livre-arbítrio, deve agir como artista de si mesmo e pensar por si mesmo. A maioria, entretanto, opta pelo não esforço e aceita, humildemente, os paradigmas hipócritas impostos pela sociedade como “verdade”. Inautêntica, essa maioria nega a mudança e, lastimavelmente, não progride. Nietzsche chama o populacho escravo da tradição de "rebanho". O rebanho de ovelhas ou os humanos "auto-niilistas".
- Interessante... Pensarei a respeito disso. Quero ser um lobo e não uma ovelha doutrinada!
- Pense! Pensar faz bem. Sobretudo, pensar no que pensar. Seja jovem e ousado em seu pensamento. Não atenha-se ao passado, nem ofusque-se pelas expectativas. Pense no que você pode fazer com o que lhe é palpável e mantenha-se fortalecido apesar das adversidades. O presente é a taça que enchemos de néctar vital, digamos-nos, agora, estóicos!
- Obrigado, amigo. Agradeço a boa conversa. Sinto-me incrivelmente transformado.
- Fico alegre, companheiro. Já estava na hora de você morrer e deixar emergir, das cinzas, seu novo Eu...

Imediatamente após aquele diálogo, Vincent acordou imerso na plenitude de sua náusea. Degustou uma xícara de café, bem amargo, para melhor despertar. Abriu as janelas enferrujadas e contemplou fixamente a realidade. Sentiu-se extremamente tolo pelo tempo perdido. Todavia, lembrou-se das palavras de Eu sobre o presente, e, sem hesitar, pôs-se a esculpir, concentradamente, o que queria. Não precisava mais da velha corcunda...

Arte: MUNCH, Edvard. The Scream (The Cry). 1893 .

Wednesday, December 05, 2007

Amor do mar



Autora: Ísis Zisels

Sexta-feira, fim de expediente. O cansaço prenuncia meu doce descanso. A noite mostra-se ébria e calorosa, convidando à lascívia os jovens enamorados. A lua, exuberante, inspira poetas e liturgias. As estrelas, cintilantes no céu, produzem tilintares agudos a cada efêmera piscadela. Desejo, naquele instante, admirar o mar intumescido...

Procuro, entusiasmado, a praia mais próxima, a fim de perder-me em meio à paisagem. Retiro os sapatos apertados, desabotôo a camisa, e caminho, displicente, sobre a orla prateada. Paro, estupefato, diante do mar. Contemplo, por alguns minutos, o portentoso canto de mistério. Observo o movimento das ondas estalando nas rochas, o som estrondoso das águas enérgicas, a espuma produzida pelas colisões... Deixo-me ser todo mar... Deixo-me sumir completamente... Desfaço-me, absorto na imensidão obscura, como os fluidos infindáveis, constantemente sorvidos na areia...

Permaneço compenetrado no oceano, abstraindo-me de mim mesmo, quando, inesperadamente, surgi-me, ao lado, uma dama de longos cabelos e rubro vestido. A mulher, incrivelmente bela, fita-me. Altiva, prossegue em direção ao mar... A água beija-lhe os pés delicados. A brisa, ligeira, rouba-lhe o perfume de sal e almíscar. Os véus, escarlates como sol, bailam no espaço, invadindo, gloriosos, o cenário azul-escuro. Admiro o voluptuoso encanto...

Almejo, imediatamente, entregar-me aos braços da fêmea: beijar-lhe a tez rósea, tocar-lhe os seios macios, como se minhas mãos pousassem em duas sensíveis papoulas... Clama-me, delirante, um corpo inteiro... Negras íris, túrgidos lábios, firmes nádegas, em quimeras primaveris às profundezas oceânicas...

No ímpeto de amor, lanço-me, aflito, às águas renascentes. Flutuo, por muito tempo, em busca do sonho vívido. Percorro, exaurido, infindáveis abismos marítimos, sem ao menos descobrir um fio cobre de cabelo. Taciturno, em árduos suplícios, conformo-me à sina lancinante. A musa, esguia e majestosa, esconde-se, enigmática, dentre as escumas desérticas...

Arte: MONET, Claude. Rock Arch West of Etretat (The Manneport). 1883.

Thursday, October 11, 2007

Vênus em decúbito



Autora: Ísis Zisels

Pela janela entreaberta, a brisa noturna trazia um pouco do orvalho primaveril. O quarto, à meia luz, reproduzia dançantes sombras nas paredes hospitalares. As figuras nebulosas pareciam ora assustadoras, ora melindrosas. À penumbra, sobre o leito de fronhas desajustadas, uma jovem enferma folheava, aleatoriamente, seu livro profano...

Envolta na própria loucura, cada página virada arrancava-lhe um sussurro enlanguescido.
Os seios palpitavam salientes e os mamilos, eriçados, pareciam escapulir do frouxo decote... Por vezes, cheia de rubor, interrompia a leitura e acariciava as angulações do próprio corpo. Contorcia o pescoço esguio, despenteando, pouco a pouco, a cabeleira castanha. Lentamente, relaxava as pálpebras e mordiscava os lábios, fazendo-os mais túrgidos.

Num ébrio instante, contraiu as nádegas, apertou as cochas roliças e pôs-se a desenhar sinuosas linhas com os quadris. Perdida em movimentos, deixou que caísse, displicentemente, o livro misterioso. As páginas brancas nada traziam, senão as insanidades daquela Vênus em decúbito...

Sem importar-se com o vazio, continuou a deleitar-se deslizando as costelas numa respiração toda ofegante. Enquanto, em seu frêmito de volúpia, esfregava os pés úmidos, vieram-lhe os primeiros raios do sol e beijaram-lhe, despudorados, as cavidades...

Arte: MODIGLIANI, Amedeo. Reclining Nude. 1917.

Monday, September 24, 2007

Pôr-do-sol, lembranças e Renoir



Autora: Ísis Zisels

A varanda amadeirada da grande e solitária casa desfrutava de um suave arrebol. Podia-se vislumbrar a floresta da Gávea cintilando, acolhedora, sob o pôr-do-sol. O céu era especialmente cor-de-rosa e as árvores transmitiam um frescor paradisíaco...

Do alpendre, uma mulher contemplava a paisagem, com certa ausência; o momento sutil onde o tempo pára, os pulmões esvaziam-se e já não há tristeza, tampouco alegria. Apenas a vida suspirando lentamente... Porque sabemos, em nosso íntimo, que as coisas não existiriam se não pudessem suspirar...

Sentia-se numa tela de Renoir: as amendoeiras delicadas, o chá que lhe umedecia os lábios, as músicas que compunha ao cello, as pessoas e flores perfumadas virariam brumas algum dia. Também as memórias guardadas em sua alma "enuveceriam-se" na alquimia do mundo... Domingos no bistrô, café com rosquinhas, Piaf, comentários sobre o Folha, um homem e seus tranqüilos olhos através dos óculos, a cor cinza do cachecol que o envolvia, a cor cinza de sempre querer, sozinha, outro beijo estéril de cor...

Lembrava-se dos romances que lera na juventude. Outrora, conhecera o amor de Werther, o idealismo de Cândido, o canto de Ofélia enlouquecida pelo pai morto e, mais ainda, os desejos e angústias de Madame Bovary.

Apesar de culpar o amor por fazê-la amar, o regalo róseo da tarde arrastava o passado aos dedos tímidos do poente. O sol da vida superava as dores causadas, pois havia mãos, olhos, boca, ouvidos, paisagens, partituras, o impressionismo de Renoir, quiçá outro nome quando os gestos amáveis dissolvem-se...

Arte: RENOIR, Pierre-Auguste. By the Seashore. 1883.