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Wednesday

METEMPSICOSE

Autora: Ísis Zisels

Meu amor vem das Moiras,

Deusas crônicas;
Das fibras sintônicas
Dos tecidos febris

Vapores de peles,

Anatólias hedônicas,
Olorosas hastes
E semblantes de atriz

Sou Hera, Deméter, 

Perséfone, Pandora
No fluxo cardíaco 
Do agora

Ventre de fêmea,

Esfinge no dorso;
Retorno ao seio faustoso

E tu, Orpheu,
Deleitável esposo,
Em meu Hades
Desvelas teu gozo!

*Dedicado ao meu amor, Rodrigo Tafuri. 
http://quempodepercorrerestaslinhas.blogspot.com.br/

Monday

EROS SUBCUTÂNEO

Autora: Ísis Zisels

A busca das bordas
O ócio do laço
O viço das línguas
Os ossos bordados
Os deuses bramindo
As bocas borradas
As brumas dos beijos 
A tez transbordada...

*Dedicado ao meu amor, Rodrigo Tafuri.
http://quempodepercorrerestaslinhas.blogspot.com.br/

O SICOFANTA QUE SABIA TETAS E O PRESUNTO QUENTE

Autora: Ísis Zisels

- Eu quero esta, Jeremy.  Calibre 38. Uma belezura. 
- O que aconteceu com a Volcanic do seu avô?    
- O matusalém foi enterrado com ela, meu chapa. Para poder estourar os próprios miolos, caso acordasse cardíaco no ataúde.
- Que loucura!   
- Ele era epilético e nauseabundo. Ninguém sabe se estava vivo ou morto. Mas cheirava feito o diabo quando o encontraram todo cagado, segurando o rádio de pilha e o distintivo de xerife.    
- Sujeito estranho! Sempre bebia café com single malt na chafarica da Ursula. Balbuciava insultos ao rapaz jocoso do balcão e só exibia a dentadura quando espichava o semblante por causa dos tiques.    
- Um asno, Jeremy, um asno! Quem, em sã consciência, derramaria Glenfiddich no expresso, como se fosse uma dose de qualquer porcaria? Watson o conhecera de outra época. Disse que o vetusto, desde mancebo, estragava as coisas boas da vida. Esculhambava os livros do irmão bastardo, açoitava cavalos e atirava nos colibris do pomar feito um calhorda. Após anos de calúnia, tornou-se responsável pelo condado para foder o rabo do Billy e de toda aquela gente despojada que você não se empenhou em ajudar...
- Vou te dizer, Wolf, o macróbio era alarife, mas possuía qualidades inusitadas...
- Talento para o pôquer, suponho? Já que a política não era o forte dos meus antepassados...
- Melhor! Identificava como ninguém um belo par de seios!    
- Francamente, Jeremy! Não precisa ser um bom comedor de xoxotas para entender do assunto.    
- Não, Wolf. Algumas beldades insistem em disfarçar a forma e o volume com a meia-taça e o espartilho. O sicofanta, depois da demência, já não cumpria seu ofício. Quando perdeu a autoridade, desenvolveu, em compensação, um olfato aguçado para tetas. Descrevia cada uma delas sem espreitar, estrábico, os decotes.   
- Ora, não me faça rir de suas piadas!    
- Eu juro, Wolf!  As raparigas do vilarejo faziam filas, bem aqui, como se aguardassem as progressões de um astrólogo. Seu avô desafiava todas elas. Garantia-lhes enxergar qualquer mamilo tímido sob as malhas rendadas e bojos vultosos. Se falhasse a missão, estaria fadado ao jogo da roleta russa.    
- Que colhões!    
- As moçoilas, estupefatas com a clarividência, erguiam as blusas e desabotoavam os vestidos, eufóricas, comprovando, umas as outras, os detalhes revelados pelo mágico anacrônico.    
- Que história!    
- Pois foi o único milagre que testemunhei nesta vida...   
- Tem cigarro?    
- Pegue aqui.  Quer fogo?

- [BANG! BANG!] Não gosto de falso testemunho, Jeremy. O cano fumegante é oportuno, a propósito. Lastimo não guardar um puto sequer no bolso desgastado de sua calça...

ESCÁRNIO

Autora: Ísis Zisels

O cerne do erro
Ruge no rosto
Rastro arranha
O roxo:
Carne exposta
Do afrouxo!

ENCONTRO CASUAL

Autora: Ísis Zisels

Degustava meu whisky, proferindo meu momento Greta Garbo, enquanto ele, Don Juan, aproximava-se inconveniente...
- Aceita outro drink, gata?
- Surpreenda-me, querido.
- Garçom, um Chivas para a moça!
- Sem gelo, por favor. - Acrescentei.
- As Time Goes By é uma linda canção, não acha?
- Sim, mas prefiro ouvi-la em silêncio... sem perguntas clichês.
- O que te excita?
- Bertolucci.
- L'ultimo Tango A Parigi?
- Claro. E você?
- Orgasmos femininos. Fui clichê?
Bebi um gole de Chivas Regel, umedecendo os lábios. Fechei os olhos, deslizando as mãos pela nuca... Fingindo desejo, emiti gemidos de lascívia, palavras despudoradas...
- Não, eu que fui! - respondi-lhe, após a encenação.
Ele riu atônito, completando com ironia:
- Foi bom só para você?
Acendi o “cigarrinho de depois”, enquanto os rostos assustados espreitavam-me. Em seguida, estendi-lhe a mão, fitando-o blasé:
- Norma Lúcia. O prazer é sempre meu.
- Eduardo. Passar bem.
Afinal, não é tão clichê o ex pagar um drink...


RELATOS DE UM VOYEUR EM SAMPA

Autora: Ísis Zisels

Sampa é o paraíso dos voyeurs. Um simples passeio pelas ruas movimentadas alimenta qualquer par de olhos famintos. Tardes prateadas cor de sombra de prostituta, lojas iluminadas, moças discretamente vulgares, executivos lobotomizados, meia-dúzia de punks e travestis. Gosto de espreitar becos e boates decadentes. Às noites, dançarinas acabadas, corrompidas por singelos traços de feiura, despem promessas de morte...
Aos trinta, conheci uma estrangeira que despia promessas de amor. Movia-se lenta, ousada, ao som de antigos vinis. O contorno do corpo fosforescia sob a lâmpada, como se fosse aura incandescente. Lábios exagerados e cabelos curtos concediam-lhe elegância dissimulada de atriz. Desabotoava o vestido transparente intimidando-me fixamente com olhos felinos. Ela, fêmea fatal, insinuava-se emudecida. Eu, estático, observava seu mistério...
Naquela noite, as botas rutilantes da mulher conduziram-me pelas vielas subitâneas do centro da cidade, produzindo ritmados estalos. Chegamos ao quarto de um velho motel de paredes mofadas. A jovem permanecia sedutora... As luzes urbanas penetravam a janela, refletindo em sua pele tons lilases. O vestido branco sobrepunha-se, translúcido, a lingerie de seda preta. Banhada em cores vibrantes despertava-me obscuros desejos...
Aproximou-se cada vez mais, esboçando sadismo no sorriso. Sabia exatamente o que queria... Antes de amar-me, retocou o batom espesso. Deitou-me na cama, dominadora, tomando-me a gravata do pescoço e atando-me os pulsos entregues. Unhas e mordidas enlouquecidas provocaram-me agudos arrepios, gritos sufocados.
No dia seguinte, os reflexos coloridos haviam se dissolvido. A manhã mostrava-se morna e opaca. O céu ocre e o barulho irritante do trânsito causavam-me vômito e enxaqueca. Despertei contra vontade. Esfreguei os olhos cansados e desfiz, com dificuldade, os nós da gravata. Quis mentalmente fotografar a vida irônica: manchas de beijos pelo corpo... Na grande São Paulo: eu, vestígios de boca e o perfume seco da solidão.

O CASTIGO DE LAURA NOWELL

Autora: Ísis Zisels

Certamente, para alguém que vivera tanto tempo nos cassinos nova-iorquinos, os porões da cidade maldita jamais pareceriam tão asquerosos quanto a mim. Sentia-me sufocado pelo ar luxurioso e atormentado pelas gargalhadas grotescas. Mas precisava revê-la. Precisava observar cada ínfimo detalhe de sua vida patética...
Laura remetia-me, mais do que nunca, à imagem de uma puta em decadência. Os seios já não eram. Os cachos loiros haviam se reduzido a singelas mechas prateadas. Ainda assim, fumava vulgarmente um charuto da Nat Sherman, deixando-o borrar pelo volumoso batom vermelho.
Sempre gostei da ousadia implícita em seus lábios, unhas e vestidos. Sempre fui completamente louco pelo seu glorioso desejo de ser o que queria. No fundo, sabia que seu corpo pertencia aos homens, mas sua alma somente a solidão...
Entretanto, era-me estúpido alguém que se dizia senhora de si mesma entregar-se aos boêmios mais hostis do estabelecimento. E não o fazia por dinheiro, apenas. Tantas vezes lhe propusera uma vida melhor, mas fora em vão. Ferido por inúmeras palavras de descaso coubera a mim, dia após dia, apodrecer ao lado daquela paixão doentia... 
As noites de novembro pareciam-me inspirar um novo começo. Cada vez que espreitava volúpia e humilhação em seus olhos, percebia minha indiferença a qualquer tipo de sofrimento. Ambos estávamos perdidos em nossas próprias jogadas. Não havia resquício algum de vitória...
Lembrei-me, num segundo fugaz, que poderia mudar o rumo das coisas. Restara-me, além de goles de loucura e amor amargado, a velha e empoeirada arma de meu pai. Sim, eu tinha uma arma. Mais do que isso, eu tinha um motivo. Seu nome? Laura Nowell...

O CORSET

Autora: Ísis Zisels

Billie Holiday. Só podia ter sido Billie Holiday. Até então meu corset era terrivelmente desconfortável, e havia uma loira oxigenada falando sem parar sobre como proclamar a autossuficiência. Sabe a amiga da sua amiga na fase pós-trinta, pós-pé-na-bunda e pós-depressão? Sinceramente, aquilo tudo era uma grande merda. Se eu fosse um pouco mais corajosa, ou tivesse bebido algumas doses extras, teria gritado em alto e bom som a palavra “merda”! Sinto um imenso prazer ao gritar impropérios esdrúxulos. Você não? Aquela gente precisava de uma boa “merdoterapia”! Ok. No mínimo me achariam uma depravada com Tourette. Mas achar é a única coisa que sabem fazer...
O corset continuava a me incomodar. O baile da hipocrisia fora especialmente decorado: flores artificiais, pessoas artificiais e ornamentos ridiculamente dourados. E, claro, um gigantesco chafariz de mármore no meio do jardim - isso porque a high society se preocupa demasiadamente com os pombos. Durante alguns segundos, observei fixamente o pênis da escultura romana, por onde a água jorrava abundante. O falo esculpido era a única coisa verdadeira naquela festa.
Já saía à francesa, quando, inesperadamente, começou a tocar “I'll Be Seeing You”... Parei no meio do salão, arrebatada pelo som melancólico. Virei-me em direção contrária e, ao longe, acabei avistando um antigo amor...
Ele parecia o mesmo. Sorriso aberto, olhar profundo, mãos bonitas, e, de novidade, uma barba incrivelmente sexy. A esposa, ao lado, era a namorada de anos atrás. Frequentemente traída por nosso desejo. Também tocou Billie Holiday quando nos conhecemos. Outra música, mas ainda assim Billie Holiday...
Imediatamente, abandonei aquela festa insuportável. Não queria que ele me visse. Decerto, mataria nossa última lembrança e eu morreria junto...
Já na rua, sucumbida por uma efêmera loucura, acendi um cigarro amassado que encontrara no fundo da bolsa. E o pior? O corset não me incomodava mais...

ENTRELINHAS

Autora: Ísis Zisels

Escrevo para expurgar demônios!
Gritar ao mundo o que há entre colchetes!
Libertar errantes "erres"
Na túrgida resposta das amígdalas!

Escrevo para vomitar hipérboles!
Em crônicos "ais"
E cômicos "mas",
Devorados por vírgulas,
Na síncope do tempo!

Escrevo para interpretar-me!
Render-me às reticências...
Exclamar volúpia e dor
Na divina loucura do amor!

Escrevo no espaço das orações
Sem aspas ou interrogações:
Nua, lúcida, plena...
No vazio silencioso que ultrapassa o verbo...

PRIMORDIAL

Autora: Ísis Zisels

Onde habita aquilo que dança?
No corpo a transpirar mel e mirra através da inexistente organza?
Ou no próprio movimento a desenhar-se dionisíaco na atmosfera?
Nos olhos de Ártemis?
Num punhal disfarçado por entre os lábios que ameaçam, com um único riso, despencar uma Babilônia?
Na confusão dos ventos de Éolo, do modo mais subversivo, quando os cabelos flutuam e os dedos languidos, repletos de turquesa, seduzem?
Na cigana que se faz toda serpente, de repente, surgindo nova e vibrante?
Nas Amarílis rubis que ofertam os seios e coxas em cachos emaranhando-se por sobre o úmido mistério?
No Ceilão de onde vem a Canela?
No sabor dos fluidos, do ventre mouro?
Nos perigos das escarpas, das mucosas?
Nas terras intactas, desconhecidas, que resguardam a beleza?
No ato de revelar-se para todo o sempre, religiosamente, ao penetrar da música com vigor?
Eis que, num grito de fogo, feito Diana ao irromper da noite, infatigável, a mulher transborda-se...
E, como se rasgasse burcas invisíveis e renascesse do inferno, e de dentro de mim, faz-se adorar perante as sombras sob o nome de Ísis!

MICROCÓSMICA

Autora: Ísis Zisels

Sou um par de estrelas míopes
Amando a noite
Sem despi-la
Tenho veias microcósmicas,
Boca microcósmica
E isso me basta

Devoro átomos,
Respiro Ápeiron,
Desejo vida
E sangro

Habito o cósmos,
Orbito nua,
Percebo o sonho:
Sou Eu ou a Lua? 

FOTOGRAFIA

Autora: Ísis Zisels

Ela e o falo
O mundo deflora
Dentro aflora
A flor de fora

Muda tudo
Muda fala
Cor desnuda:
NONADA

Flagra a luz
Flui no tempo
Arte-fato
Olhar atento

VÊNUS EM DECÚBITO

Autora: Ísis Zisels

Pela janela entreaberta, a brisa noturna trazia um pouco do orvalho primaveril. O quarto, à meia luz, reproduzia dançantes sombras nas paredes hospitalares. As figuras nebulosas pareciam ora assustadoras, ora melindrosas. À penumbra, sobre o leito de fronhas desajustadas, uma jovem enferma folheava, aleatoriamente, seu livro profano...
Envolta na própria loucura, cada página virada arrancava-lhe um sussurro enlanguescido... Os seios palpitavam salientes e os mamilos, eriçados, pareciam escapulir do frouxo decote... Por vezes, cheia de rubor, interrompia a leitura e acariciava as angulações do próprio corpo. Contorcia o pescoço esguio, despenteando, pouco a pouco, a cabeleira castanha. Lentamente, relaxava as pálpebras e mordiscava os lábios, fazendo-os mais túrgidos.
Num ébrio instante, contraiu as nádegas, apertou as cochas roliças e pôs-se a desenhar sinuosas linhas com os quadris. Perdida em movimentos, deixou despencar, displicentemente, o livro misterioso. As páginas brancas nada traziam, senão as insanidades daquela Vênus em decúbito...
Sem importar-se com o vazio, continuou a deleitar-se deslizando as costelas numa respiração toda ofegante. Enquanto, em seu frêmito de volúpia, esfregava os pés úmidos, vieram-lhe os primeiros raios do sol e beijaram-lhe, despudorados, as cavidades...

O BEIJO

Autora: Ísis Zisels

Impele-me
Teu encanto:
A pele ao tato
Apela à fala
E cala
Em canto
A língua (oculta)
Intenta ausculta
A tanto

FOME

Autora: Ísis Zisels

CONVIDA
COM VIDA
COMO VIDA
COMOVIDA
MOVIDA
VIDA
COMO!

O PESCADOR DE ESTRELAS

Autora: Ísis Zisels

No pitoresco vilarejo da cidade Onírica, João Capaz, simplório pescador, desperta transeuntes narrando-lhes um punhado de histórias. Apesar do corpo envelhecido, João transparece nos miúdos olhos ambarinos um fulgor intenso de mancebo arisco.
Quando jovem, viajara por águas ocultas num efêmero barquinho de papel. Enfrentara noites lancinantes, violáceas tempestades e revoltas ventanias. Desvelara, em insólitos mergulhos, a beleza dos tesouros soçobrados nas íntimas escarpas. Levara consigo, de cada lugar, estrelas-do-mar repletas de luz; divinos regalos de sabedoria...
Velejou primaveras a fio conforme o arquejo das marés. Percorreu escumas buliçosas até tornar-se ancião. Em resposta, as correntes ofertaram-lhe, para descanso, o doce porto de Onírica. João Capaz, grato ao pouso, dedicou-se às refulgentes noites da cidadezinha...
Caminha, amiúde, sob imaculadas constelações, carregando, na mão esquerda, uma candeia; na direita, uma vara de pesca. Como isca, sopra aventuras à ponta do anzol. Em seguida, escolhe a estrela mais sublime e lança, rumo a esta, a linha esguia presa ao bambu.
Contempla a corda expedita a flutuar na calmaria celeste feito cauda de pássaro. Pressente, do contato entre astros e anzol, o som de clarins. Celebra o místico encontro derramando sorrisos ao luar. Sabe, mais do que nunca, sobre si mesmo: João Capaz, pescador de sonhos, peregrino do absoluto...

PÔR DO SOL, LEMBRANÇAS E RENOIR

Autora: Ísis Zisels

A varanda amadeirada da grande e solitária casa desfrutava de um suave arrebol. Podia-se vislumbrar a floresta da Gávea cintilando, acolhedora, sob o pôr do sol. O céu era especialmente cor-de-rosa e as árvores transmitiam um frescor paradisíaco...
Do alpendre, a mulher contemplava a paisagem com certa ausência; o momento sutil onde o tempo para, os pulmões esvaziam-se e já não há tristeza, tampouco alegria. Apenas a vida suspirando lentamente... Porque sabemos, em nosso íntimo, que as coisas não existiriam se não pudessem suspirar...
Sentia-se numa tela de Renoir: as amendoeiras delicadas, o chá que lhe umedecia os lábios, as músicas que compunha ao cello, as pessoas e flores perfumadas virariam brumas algum dia. Também as memórias guardadas em sua alma "enuvesceriam-se" na alquimia do mundo... Domingos no bistrô, café com rosquinhas, Piaf, comentários sobre o Folha, um homem e seus tranquilos olhos através dos óculos, a cor cinza do cachecol que o envolvia, a cor cinza de sempre querer, sozinha, outro beijo estéril de cor...
Lembrava-se dos romances que lera na juventude. Outrora, conhecera o amor de Werther, a vontade de Cândido, o canto de Ofélia enlouquecida pelo pai morto e, mais ainda, os desejos e angústias de Madame Bovary.
Apesar de culpar o amor por fazê-la amar, o regalo róseo da tarde arrastava o passado aos dedos tímidos do poente. O sol da vida superava as dores causadas, pois havia mãos, olhos, boca, ouvidos, paisagens, partituras, o impressionismo de Renoir, quiçá outro nome quando os gestos amáveis dissolvem-se...

AMOR DO MAR

Autora: Ísis Zisels

Sexta-feira, fim de expediente. O cansaço prenuncia meu doce descanso. A noite mostra-se ébria e calorosa, convidando à lascívia os jovens enamorados. A lua, exuberante, inspira poetas e liturgias. As estrelas, cintilantes no céu, produzem tilintares agudos a cada efêmera piscadela. Desejo, naquele instante, admirar o mar intumescido...
Procuro, entusiasmado, a praia mais próxima, a fim de perder-me em meio à paisagem. Retiro os sapatos apertados, desabotôo a camisa, e caminho, displicente, sobre a orla prateada. Paro, estupefato, diante do mar. Contemplo, por alguns minutos, o portentoso canto de mistério. Observo o movimento das ondas estalando nas rochas, o som estrondoso das águas enérgicas, a espuma produzida pelas colisões... Deixo-me ser todo mar... Deixo-me sumir completamente... Desfaço-me, absorto na imensidão obscura, como os fluidos infindáveis, constantemente sorvidos na areia...
Permaneço compenetrado no oceano, abstraindo-me de mim mesmo, quando, inesperadamente, surgi-me, ao lado, uma dama de longos cabelos e rubro vestido. A mulher, incrivelmente bela, fita-me. Altiva, prossegue em direção ao mar... A água beija-lhe os pés delicados. A brisa, ligeira, rouba-lhe o perfume de sal e almíscar. Os véus, escarlates como sol, bailam no espaço, invadindo, gloriosos, o cenário azul-escuro. Admiro o voluptuoso encanto...
Almejo, imediatamente, entregar-me aos braços da fêmea: beijar-lhe a tez rósea, tocar-lhe os seios macios, como se minhas mãos pousassem em duas sensíveis papoulas... Clama-me, delirante, um corpo inteiro... Negras íris, túrgidos lábios, firmes nádegas, em quimeras primaveris às profundezas oceânicas...
No ímpeto de amor, lanço-me, aflito, às águas renascentes. Flutuo, por muito tempo, em busca do sonho vívido. Percorro, exaurido, infindáveis abismos marítimos, sem ao menos descobrir um fio cobre de cabelo. Taciturno, em árduos suplícios, conformo-me à sina lancinante. A musa, esguia e majestosa, esconde-se, enigmática, dentre as escumas desérticas...

LÍNGUA DE GATO

Autora: Ísis Zisels

Gosto de gatos. Felinos são animais estéticos: possuem deslumbrante capacidade de embelezar qualquer ambiente. Desfilam feito obras de arte ambulantes por entre os obstáculos adaptando-se a eles; sinuosos, precisos, compõe com elegância genuína o cenário onde habitam.
Conquistam determinado lugar não porque almejam submetê-lo, mas porque sabem aproveitar todo o espaço de modo que as coisas, ali dispostas, naturalmente, vinculem-se a eles. Assim, são, simultaneamente, cativados pelo território ocupado durante o jogo de interação.
Olhos atentos, misteriosos, desafiadores. Não temem o confronto com o outro, muito pelo contrário, deliciam-se a partir da intrigante experiência... Há um prazer malicioso na possibilidade de redirecionar, inadvertidamente, o espectador ao próprio abismo, atuando, ao mesmo tempo, como quem o espreita.
Vaidosos... Quiçá?  No entanto, o que soa orgulho é a manifestação da admirável dignidade perante o reconhecimento  da própria solidão. Característica também peculiar aos bípedes implumes, simbolicamente estruturados, dotados de desejo e fantasia...
A propósito, que patético: eu, aqui, humanizando os gatos! Logo eles que utilizam a língua áspera para a limpeza pessoal, enquanto procuro surpreender-me com representações de mim mesma. Mas a linguagem não me serve para lamber pelos e inventar sabores? Afinal, a curiosidade matou o gato?

LILITH

Autora: Ísis Zisels

Sou dama noturna
Dos cantos e quimeras
Rainha da lua
Em negra esfera

Meu corpo é leito
De doce encantamento
Nos seios, perfume
No ventre, movimento

Meu beijo é profundo,
Meu sangue é licor
A boca lasciva
Implora amor

Mulher de enlevos,
Do êxtase aos ermos
Trêmula, ofegante,
Aflita amante

Lânguida e úmida
Nas pernas, o enlace
Eu sou o desejo
Que teima e nasce...

CÍCLICA

Autora: Ísis Zisels

...Vinda...
...A vida...
...Ávida...
...Viva...
...Re-vinda..
...Re-vida...
...Re-avida...
...Re-vivida...